quinta-feira, 3 de agosto de 2017

Para que servem os partidos políticos?

A possibilidade de metade dos infectados com legionella poder ficar de fora das indemnizações, que o Estado deve pagar às vítimas, é um assunto que deveria mobilizar todos os partidos políticos com representação nas autarquias de Vila Franca de Xira.
Se é verdade que metade das vítimas não teve o apoio que devia ter tido, para chegar à justiça, num caso de saúde pública que já é digno de figurar nos anais da história como um dos mais graves, para que é que servem os partidos políticos na nossa democracia?
Estamos à beira de eleições autárquicas; a sociedade civil devia mobilizar-se e ajudar as vítimas; e obrigar os partidos políticos e os seus representantes a assumirem as suas responsabilidades na defesa dos mais fracos e desprotegidos; daqueles que estão nas mãos dos banqueiros e dos grandes empresários que dominam os interesses instalados e são eles próprios os donos disto tudo.
Vila Franca de Xira devia começar a pensar num monumento, ainda que simbólico, ou não, de homenagem às vítimas, para que também servisse de pressão contra o Estado e todos aqueles que se demitiram, e ainda se demitem, das suas responsabilidades.
Um monumento aos cidadãos desprotegidos que pagaram com a vida o facto de terem escolhido o concelho de Vila Franca de Xira para nascerem e viverem; um monumento para que todos os dias e todas as semanas, e para sempre, possamos mostrar ao mundo que fazer Justiça não é só prender políticos e polícias corruptos; assassinos e gatunos.
Em Vila Franca de Xira, como em muitas terras do mundo civilizado, é proibido atravessar a estrada fora das passadeiras; é o Estado a determinar o que deve fazer pela nossa segurança; como é que podemos admitir que nestes tempos em que o Estado tem todos os serviços de saúde grátis, não tenha mão pesada para todos aqueles que nos matam com mão invisível? JAE

Opinião ao artigo: Judiciária aponta falta de medidas preventivas no caso legionella

quinta-feira, 7 de abril de 2016

O Tejo e as jogadas políticas

Esta crónica saltou da caneta para o papel a uma sexta-feira por volta da meia-noite. O dia começou cedo depois de um salto da cama e o início dos preparativos para uma viagem de trabalho à Guarda. Já de volta almocei sável frito num restaurante de Tancos e às 15h30 já estava numa entrevista com a direcção da Agrotejo na Golegã. Cerca das dezoito horas um médico fisiatra de uma clínica de Santarém tentou explicar-me que a rutura completa do tendão distal do bicípite branquial do braço esquerdo não se cura com paninhos quentes. Uma vez que recusei a cirurgia vou ter que fazer muita fisioterapia.
Com algum desconforto, mas sabendo que tenho um corpo jovem que se regenera com muita facilidade, fui a correr para a secretária com os olhos bem abertos para abrir o correio e despachar os assuntos mais urgentes.
Uma hora depois estava a trabalhar em viagem até chegar à piscina onde dei umas braçadas e abri o caderno para actualizar as minhas notas. Lanchei duas maçãs no banho turco e, depois de um banho de água fria, meti-me ao caminho para o cinema onde assisti ao filme das 21h30, numa sala gigantesca para meia dúzia de almas solitárias como eu.
Escrevo à meia-noite numa sala minúscula para a grandiosidade daquilo que os meus braços gostavam de alcançar apesar da rotura completa do meu tendão.
Enquanto as palavras saltam da caneta para o papel vou relembrando os passos que dei durante o dia; doi-me a cabeça por não ter devolvido três telefonemas que estão registados no meu telemóvel; por não ter tratado de assuntos que na quinta-feira apontei no meu caderno com a indicação de urgentes; um deles é o trabalho final da capa de um livro.
Quando a minha mão direita pegou na caneta para escrever esta crónica a ideia era contar o que penso do trabalho dos nossos deputados que no início desta semana fizeram uma viagem de reconhecimento Tejo abaixo por causa dos problemas da poluição. Vai para o lixo tudo o que escrevi a seguir ao último ponto final deste texto. A maior parte dos deputados da Nação são filhos de gente que já foi pobre; alguns deles são netos de gente que vivia da pesca ou da agricultura. Hoje são pessoas importantes; militam no Bloco de Esquerda, no Partido Socialista ou até no Partido Comunista. Nestes últimos dias andaram a ver a poluição do Tejo sem saberem que um rio não é só um curso de água mais ou menos poluída pelo mau funcionamento das ETAR´s e pelas descargas poluentes de algumas indústrias. Depois desta visita vão escrever um relatório que entregarão ao primeiro-ministro onde darão conta daquilo que foram as principais questões que os mantiveram acordados entre tantos afazeres como cuidar dos telefonemas dos camaradas e dos interesses que ficaram em banho maria nos seus gabinetes da Assembleia da República. Depois volta tudo ao normal. Daqui a uns anos restam as fotografias de grupo e as recordações das almoçaradas e das jogadas políticas. JAE

quinta-feira, 31 de março de 2016

Um novo jornal online

O MIRANTE vai estrear novos sítios na Internet dentro de alguns dias. A promessa está feita desde Novembro mas o tempo passou e o projecto deu pano para mangas. Vamos editar um sítio moderno ao nível dos melhores jornais portugueses que se publicam online.
Quem já se habituou à nossa presença na net, e considera que somos a voz da região, vai começar a ter ainda mais razões para ler e acompanhar o nosso trabalho.
Curiosamente estamos a atravessar um período em que se anuncia o fecho de jornais em papel e o investimento em exclusivo nas edições online. O “El País”, um dos melhores jornais do mundo, e o mais influente no universo da língua portuguesa e espanhola, já anunciou que vai contar com a edição em papel até os leitores assim o decidirem; mas o investimento online não vai parar. Há muitos outros exemplos no mundo da edição que provam que o mundo está a mudar e os editores e patrões da imprensa precisam de acertar contas com o futuro.
A prova de que nem tudo é só mudança, e de que algumas mudanças são para pior, está na republicação da foto da deputada Odete Silva, falecida recentemente, que alguns jornais de âmbito nacional copiaram da edição de O MIRANTE sem citarem a fonte ou darem os créditos merecidos e obrigatórios. 
Toda a gente fala do regabofe que anda por aí nas redes sociais, em que qualquer pato bravo se arma em jornalista copiando as notícias e republicando com pequenas alterações, mas nas redacções dos jornais de referência trabalha muita gente que não conhece as regras ou está instruída para as ultrapassar sempre que acha caminho livre para a impostura.
Não tenho razões para duvidar do futuro do jornalismo em Portugal mas tenho muitas dúvidas sobre os projectos em que assentam muitas das publicações que já foram referências do jornalismo português. Veremos se a morte anunciada dos jornais em papel não é uma forma de disfarçar a agonia da imprensa no seu todo (sabendo que atravessamos uma época de grandes mudanças na forma como os órgãos de comunicação social se financiam). JAE

quinta-feira, 24 de março de 2016

Um elogio aos carteiros

Nos mais de 30 anos que levo de empresário à força só trabalhei com quatro bancos e jamais consegui crédito que não fosse com o aval do património que entretanto fui adquirindo e que me está emprestado até à hora da minha morte. Recentemente mudei de banco. Actualmente todas as contas caucionadas da empresa e aberturas de crédito estão apenas garantidas por duas assinaturas. O gerente do banco é o meu gestor de conta; ainda ontem passou pela empresa para deixar uns papéis. Não fui eu quem evoluiu como empresário; continuo a sê-lo à força; foi o sistema que melhorou. Saí do meio dos banqueiros e dos bancários ricos, ou supostamente ricos, e fui à procura de melhores ofertas. E encontrei. 
Escrevo em cima de um jornal diário que publica uma entrevista com o administrador dos CTT e o director do novo banco propriedade dos Correios. Dizem eles que estão a contar com os carteiros para fazerem clientes e conquistar mercado muito rapidamente. “Os carteiros são bem vistos pelos portugueses”, afirmam, como se nós não soubéssemos! Certamente, mais tarde ou mais cedo, vou ser cliente deste novo banco porque também eu tenho uma boa relação com os carteiros e respeito pelo seu trabalho. Se o banco dos CTT lhes der uma comissão na angariação de clientes, ao mesmo tempo que lhes dá as cartas para distribuir, é certo que podem contar com a minha adesão.
Uma boa parte dos gajos e gajas que me escrevem para tentarem publicar um livro, para enviarem um currículo ou pedirem um qualquer jeitinho, começam a mensagem com um Boa Tarde e despedem-se com Cumprimentos. O meu problema não são estes gajos e gajas e a sua inabilidade para escreverem uma missiva e gerarem afectividade; o meu problema são aqueles que, ao engano, ainda vamos aceitando para trabalharem na nossa equipa.  JAE

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Tolerância zero

“Em Portugal o número de relatos associados à área da saúde tem apresentado um crescimento exponencial. Esta conflitualidade crescente entre pacientes, profissionais e instituições de saúde, implica, forçosamente, maior reflexão e novas formas de actuação”. Este texto foi retirado de uma comunicação, entre muitas, que caem diariamente no meu email profissional. Sou sensível a esta questão e defendo que nas questões da saúde os governos deviam implementar tolerância zero para os profissionais da área nomeadamente médicos e enfermeiros. Tenho a certeza que com este tipo de política poupar-se-iam muitas vidas. Para os tribunais a perda de uma vida vale, em média, cinquenta mil euros. Há casos em que os tribunais decidem valores dezenas de vezes superiores em condenações na defesa da honra. Alguém tem dúvidas que uma vida que acaba brutalmente numa curva da estrada, ou silenciosamente devido a um erro médico, tem mais valor que a honra de alguém que foi injuriado ou caluniado? Como é que é possível comparar o valor da vida de uma pessoa com o valor da honra de alguém que pode viver para se salvar da calúnia e provar a sua inocência?
Tolerância zero para os profissionais da saúde não acabaria com os erros médicos mas ajudaria muito a simplificar a vida dos doentes e a protegê-los das armadilhas do Sistema que incluem, entre outras, as conhecidas companhias de seguros que não se livram da fama, e do proveito, de serem mais poderosas que os Governos. JAE

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Os jornais e a selva

Nos últimos tempos alguns comentadores da vida política entretiveram-se a escrever sobre os jornais e a Comunicação Social em geral. Está na moda discutir os media e o assunto é apetecível porque a publicidade, o grande sustentáculo dos jornais, caiu ao nível da sarjeta. Já ninguém vive nas suas torres de marfim. A realidade a preto e branco chegou para todos.
Como é normal a grande maioria entende, e defende, que as grandes empresas devem considerar serviço público o apoio à edição levando os prejuízos à conta dos grandes lucros nas actividades principais. Em teoria é muito bonito. Na prática é o que já acontece há muitos anos, desde que existe imprensa e se tornou necessário inventar formas de defender os interesses, às vezes inconfessáveis, de determinados grupos económicos e políticos sem olhar a misérias.
Ninguém escreve sobre a falta de qualidade da informação nem da falta de preparação dos jornalistas. Já ninguém põe em dúvida que a informação se tornou num vendável de banalidades repetidas por todos os escribas a trabalhar em bando atrás de ministros, ex-ministros, banqueiros e outras espécies do nosso zoológico europeu.
Cada dia que morre um velho morre mais um leitor de jornal em papel. É assim nos últimos 40 anos com os jornais de referência a inventarem todos os dias formas de esconderem as tiragens miseráveis que já não pagam as despesas da impressão e muito menos o valor do papel.
É um gozo ler os homens públicos que enchem páginas inteiras de artigos de opinião a escreverem para eles próprios e meia dúzia de amigos. E o gozo é maior ainda quando damos conta que, em teoria, eles já não escrevem para os animais do zoológico: eles são os últimos animais da selva e, embora em cativeiro, procuram sobreviver como melhor sabem escrevendo e comentando na televisão.
O resultado das eleições presidenciais confirmaram aquilo que está escrito nas estrelas. Os portugueses riem do Tiririca brasileiro mas logo que lhes dão uma oportunidade votam no Tino de Rans. Jerónimo de Sousa e os seus amigos de Alpiarça e Vila Franca de Xira precisam aprender a lição ou um dia destes vão passar à História. JAE

Os efeitos da tragédia e os autarcas legionella

Este assunto é manchete desta edição porque O MIRANTE sente-se no dever de estar do lado das famílias que sofreram, ainda sofrem e vão sofrer para sempre, do efeito da tragédia que foi o surto de legionela no concelho de Vila Franca de Xira. Depois da visita dos autarcas de Vila Franca de Xira a duas das fábricas ficamos a saber com o que podemos contar em termos de trabalho dos eleitos municipais. Para eles não há dúvidas que os culpados têm que ser apurados pela justiça; o resto, que ficou espelhado naquilo que disseram numa assembleia municipal, depois de uma visita aparentemente secreta às fábricas, é um lamentável equívoco de quem tem a obrigação de pôr os responsáveis das fábricas a falarem à população e a assumirem aquilo que só eles têm a obrigação de assumir.
Bem basta os deputados da Assembleia da República para protegerem o Sistema e deixarem os mais fracos nas mãos do destino. Ao nível local exige-se mais dos autarcas. Eles conhecem e são vizinhos do pé da porta das famílias dos cidadãos que morreram ou ficaram doentes e com mazelas para o resto da vida.
Deixem-se de tretas e de conversa fiada e apareçam, e falem, se tiverem algo de novo para transmitir. Se não têm, respeitem pelo menos os que sofreram e sofrem dos efeitos da tragédia. Ou então demitam-se da comissão e dêem lugar a outros autarcas mais competentes e corajosos. JAE

Comentário à noticia: http://semanal.omirante.pt/index.asp?idEdicao=741&id=114537&idSeccao=13513&Action=noticia#.VqnrAFLznuM